” Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”.

 (Memória-Carlos Drummond de Andrade)

É incrivelmente interessante como mesmo pensando que “passado é coisa de museu”, ele interfere no presente muito mais do que as pessoas possam perceber. Tudo bem que essa não é a descoberta do século, mas me ajudou a pensar e descobrir muitas coisas acerca das pessoas com as quais convivo.

        Simplesmente tudo começou há três semanas, quando comecei a fazer companhia para minha avó todas às tardes. Mesmo morando sempre na mesma cidade que ela, eu nunca tive um relacionamento tão próximo e cotidiano como agora. Sempre soube que minha vó era teimosa e tinha certas manias, mas não sabia o porquê dessas atitudes. Nada melhor para descobrir como a pessoa é hoje do que uma boa conversa que remexa nas lembranças.

        Um dia desses sentada no sofá vendo televisão com ela começamos a conversar sobre a infância dela. Só então descobri que essa que deveria ser uma experiência muito agradável de ser relembrada tem efeitos negativos que ecoam até hoje.

        Minha vó era neta de espanhóis, por parte de mãe, mas não sabe suas origens paternas, pois meu bisavô foi abandonado atrás de um pé de bananeira, e então foi encontrado e criado por pais adotivos. Quando pequena minha vó já ajudava a mãe nos afazeres domésticos e a cuidar dos irmãos mais novos. Para agravar ainda mais a situação, sua mãe perdeu a visão totalmente e então as obrigações que já não eram poucas, triplicaram para ela, que era a filha mais velha. Como tinha que cuidar dos irmãos mais novos,  não podia estudar nem tampouco brincar como toda criança gosta de fazer. Aos 10 anos entrou em forte depressão que era curada com surras, já que seu pai dizia que não havia tempo pra brincar, que tudo aquilo era desculpa para não fazer o serviço.

        Quando mais jovem buscou a liberdade no casamento. Namorou meu avô e sua irmã começou ameaçar rouba-lo, argumentando que minha vó era analfabeta e que era “caipira”. Mais do que depressa minha avó apressou-se em ajeitar as coisas para o casamento. Mesmo após se casar as dificuldades financeiras continuaram. Depois vieram os filhos, e a vida continuava com muitos sacrifícios. E tudo isso foi apenas acumulando. Dizem que quando nascemos somos como uma folha em branco. Minha vó teve muitos riscos e alguns amassados ao decorrer das folhas do seu livro. E infelizmente esses rabiscos não foram corrigidos, ou passados a limpo.  Apesar de atualmente ter uma vida simples, mas confortável, esse medo de que algo possa faltar continua, e mesmo essa forma frágil de ser e agir, continuam escondida atrás das pirraças e atos ranzinzas. Há nove meses tudo piorou com a perda de seu companheiro de vida, que durante 54 anos compartilhou com ela medos e sonhos, dificuldades e felicidades. E do mesmo jeito que os problemas passados não se apagaram da memória, a perda só veio somar tristezas.

        Depois de presenciar essas coisas pude perceber que de fato o nosso passado tem um peso forte sobre como somos hoje. Felizmente guardo boas lembranças de minha infância, mas agora sei que mesmo que coisas não tão boas tenham acontecido depois, não devo carregá-las comigo. Assim como guardo somente fotos que ficaram boas ou que lembram de algum momento feliz, tenho que fazer isso com meus sentimentos e lembranças. Pra mim só quero o que traga alegria, e o que for problema passado, que seja resolvido e deixado lá, no passado, que é seu lugar. Só sei que esta é uma experiência que levarei pra sempre comigo. E acima de: ser grata por tudo que tenho, por minha família (apesar de seus problemas), por minha saúde, enfim, por ser abençoada todos os dias com o mais rico dos dons: a vida!

       “Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em qualquer situação, quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito ou tenha pouco. Com a força que Cristo me dá, posso enfrentar qualquer situação”. (Filip. 4:12 e 13)

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