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Adugnaw Worku, bibliotecário chefe do Pacific Union College em Angwin, Califórnia, Estados Unidos, fez o discurso a seguir (aqui editado) para os formandos da Southwestern Adventist University em Keene, Texas (E.U.A), no dia 17 de dezembro de
2009. – Os editores.

Que diferença faz a educação, especialmente a educação cristã!A maioria dos que se formam na faculdade iniciam sua educação acadêmica entre os 6 e 7 anos de idade. Completam o ensino fundamental aos 13 ou 14 e o ensino médio por volta dos 18 anos. Ao chegarem aos 22 ou 23 anos, terminam a faculdade. A minha experiência durante esses primeiros anos de formação, entretanto, foi muito diferente.

Infância na Etiópia
Tornei-me um pastor de ovelhas aos sete anos de idade. Perambulava pelos vastos prados e colinas da zona rural no noroeste da Etiópia, com cabritos, ovelhas, vacas e alguns burros. Essa era a minha obrigação diária até completar doze anos. Então, passei a função de pastor para meu irmão mais novo e mudei para a fazenda da família. Lá, aprendi a arar a terra usando um par de bois, a plantar, capinar e colher. Descobri a dignidade do trabalho muito cedo na vida e assumia maiores responsabilidades a cada novo ano. Minha família e eu sobrevivíamos da lavoura. Plantávamos tudo de que necessitávamos para viver. O trabalho era extenuante e, literalmente, vivíamos do suor do nosso rosto. Essa não era uma questão de escolha, mas de sobrevivência. Minha profissão de agricultor durou até os 15 anos.

Mudança de Vida
Por esse tempo, sofri um terrível acidente que cegou e desfigurou meu olho esquerdo. Os melhores “profissionais” da saúde de minha aldeia tentaram me ajudar com os remédios tradicionais, mas nada funcionou. Assim, minha família
decidiu me enviar para um hospital moderno. Caminhei com um grupo de comerciantes, por dois dias, até o hospital mais próximo. Aconteceu que aquele hospital era da missão Adventista do Sétimo Dia, construído no meio do “nada”.
Minha família e eu não éramos adventistas, mas muitos dos parentes de minha mãe eram. Portanto, eu conhecia um pouquinho daquela religião. Quando cheguei à sede da missão, encontrei três coisas: uma igreja, uma escola e um hospital. A filosofia e prática de construir uma igreja, uma escola e um centro de saúde tem sido há muito tempo uma característica dos Adventistas do Sétimo Dia em todo o mundo. Foi assim que a Igreja Adventista começou seu trabalho nas décadas de 1860 e 1870, construindo a igreja, o sanatório e o colégio em Battle Creek, Michigan (E.U.A.). Essa prática de proporcionar um desenvolvimento harmonioso do aspecto físico, mental e espiritual de cada ser humano, está profundamente enraizada na filosofia adventista. Não foi incomum, portanto, eu encontrar essas três instituições na sede da missão no noroeste da Etiópia, aproximadamente uns cinquenta anos atrás. Enquanto eu estava sendo tratado ali, observava atentamente os alunos da escola. Observava o que faziam, como se vestiam e como se comportavam. Percebi, imediatamente, que tinham algo especial que eu não tinha. Instintivamente senti que a educação é imprescindível. Vi que as crianças de 7 e 8 anos de idade, liam e escreviam, e eu, com 15 anos não era capaz sequer de escrever meu nome. Eu era um lavrador analfabeto e sabia disso. O desejo de frequentar a escola tornou-se incontrolável e decidi encontrar um meio de fazê-lo. Havia, porém, dois grandes problemas: Eu não tinha o consentimento de meus pais e nenhum dinheiro. Só tinha a roupa do corpo. Na minha cultura rural, a permissão dos pais era muito importante. No interior da Etiópia, os pais exercem considerável poder e influência sobre seus filhos. Eles escolhem sua profissão, seu cônjuge, sua religião e o local onde vão morar. Mesmo que a ideia de ir contra os desejos de meus pais pesasse em meus ombros, o intenso desejo de frequentar a escola era ainda maior.

Respostas de Deus à Oração de um Jovem
A falta de dinheiro e da permissão dos meus pais parecia ser um problema insolúvel, e naquele tempo eu não sabia orar formalmente. Lembro-me, porém, de repetir várias vezes uma pequena oração: “Deus, por favor, me ajude.” “Querido
Deus, por favor, me ajude.” O Senhor ouviu aquela simples oração e respondeu-a miraculosamente. Aos 15 anos, tornei-me um orgulhoso aluno da primeira série, no meio do ano escolar. Eu estava tão agradecido e extremamente feliz que, até hoje, considero aquele o dia do meu segundo nascimento. Já estava com 20 anos quando conheci o Deus amoroso e perdoador e me uni à Igreja Adventista do Sétimo Dia através do batismo. Aprendi nas aulas de Bíblia, na Escola Sabatina e na igreja que esse Deus pessoal tem expectativas e padrões muito elevados, mas nunca dispensa de Sua presença um pecador arrependido. Ele perdoa e diz: “Vá e não peques mais”; e nunca diz: “Vá embora.” Nunca! Essa descoberta deu rumo, significado, propósito, paz e estabilidade a minha vida.

Ajuda dos Missionários
Com 22 anos, eu me formei na oitava série – primeiro com minha classe, e no estado, após fazer o exame nacional. Não foi tão mal para um jovem agricultor! Nesse mesmo ano, conheci na sede da missão, uma maravilhosa família de missionários americanos, do sul da Califórnia, que me recebeu em seu lar como um de seus filhos. Dr. Harvey Heidinger era médico no hospital. Sua cunhada, Carolyn Stuyvesant, era enfermeira. Elizabeth Heidinger, esposa do Dr. Heidinger, era nossa “mama” em casa. Essa família de missionários deixou o conforto e
conveniências do sul da Califórnia e viajou para aquela distante missão, no noroeste da Etiópia, onde havia poucas amenidades modernas. Sou muito grato por terem ido, pois mudaram a minha vida. Eles financiaram meus estudos, e dos
meus irmãos, até a faculdade. E que diferença a educação em geral, e particularmente a educação cristã, fez em nossa vida! Como a maioria das pessoas, avalio meu sucesso na vida pela altura das minhas escaladas. Nunca me esqueci, porém, da profundidade de onde saí. Essa dicotomia torna ainda mais profunda e maior a minha gratidão a Deus e ao Seu povo. Graças à generosidade daqueles missionários, eu frequentei um internato adventista por quatro anos, e me formei como presidente de minha classe aos 25 anos. Após o ensino médio, matriculei-me no Avondale College, na Austrália, onde me formei aos 30 anos. Segui, então, para a Andrews University, em Berrien Springs, Michigan (E.U.A.), para cursar um mestrado. Assim, sou um produto da educação adventista do começo ao fim. Isso não me deixa apenas grato, mas também orgulhoso. Pode parecer que sempre estive atrasado, no entanto, consegui realizar tudo. Casei-me aos 36 anos e tornei-me pai aos 40. O que mais posso dizer? Os Benefícios da Educação Adventista A Igreja Adventista do Sétimo Dia emprega uma quantidade enorme de recursos financeiros, humanos e materiais para educar seus jovens. Ela oferece aos jovens a oportunidade de encontrar um Deus pessoal em um ambiente seguro e encorajador, onde podem questionar e pesquisar as questões fundamentais da vida. O propósito da educação cristã é ajudar aos jovens a descobrir um Deus pessoal, amoroso, perdoador e a desenvolver uma fé inabalável nEle. Ela também ajuda nossos jovens a desenvolverem os talentos dados por Deus, de uma forma distintamente cristã adventista e assim servir a Deus e à humanidade. Ellen White, no livro Educação, afirma claramente a missão das escolas adventistas. Ela escreve: “A verdadeira educação significa mais do que avançar em certo curso de estudos. É muito mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. É o desenvolvimento harmônico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais. Prepara o estudante para a satisfação do serviço neste mundo, e para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro.” Algumas páginas à frente ela acrescenta: “É a obra da verdadeira educação … preparar os jovens para que sejam pensantes e não meros refletores do pensamento de outrem.” Resumidos nessas declarações estão os principais conceitos e reflexões sobre educação: amor a Deus, ao próximo e o serviço para ambos. É por essa razão que as escolas adventistas existem e o motivo de a igreja empregar na educação grande parte de seus recursos.

Integridade sem Concessões
Mais uma vez, no livro Educação, Ellen White descreve outro objetivo vital das escolas adventistas: “A maior necessidade do mundo é a de homens [homens e mulheres] – … que se não comprem nem se vendam; [homens e mulheres] que
no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; … [homens e mulheres] cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; [homens e mulheres] que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus. Mas um caráter tal não é obra do acaso … Um caráter nobre é o resultado da disciplina própria … [e] da renúncia do eu para o serviço de amor a Deus e ao homem.”
Sua integridade, como pessoa, não faz concessões? Se isso for verdade, não se esqueça de acrescentar em seu currículo. Empregadores em potencial e comissões de admissão nas escolas de pós-graduação vão levá-lo a sério e, provavelmente,
decidirão a seu favor. O mundo necessita desesperadamente de homens e mulheres com integridade pessoal que não faça concessões. A atual crise econômica nos Estados Unidos, que deixou milhões de pessoas sem trabalho e sem moradia, foi provocada por homens e mulheres bem educados, com diplomas de instituições educacionais de prestígio, mas com pouca integridade. Estudos das fraudes nos comércios de varejo nos Estados Unidos revelam perdas de bilhões de dólares, todos os anos, por furto. E sessenta por cento desses furtos são cometidos por empregados. Mais de trinta por cento das novas empresas fracassam devido à desonestidade dos funcionários. Tragicamente, esses não são incidentes isolados.

Todos os Filhos de Deus
As escolas adventistas ensinam que todos somos filhos de Deus. Se aceitamos a Deus como nosso Pai, não podemos escolher quem são nossos irmãos e irmãs. Vocês são meus irmãos e irmãs , e eu sou seu irmão, não importa quem somos ou de onde viemos. Nem sempre vivemos esse ideal de lealdade, mas esse é o nosso alvo. É por isso que os missionários cruzam o oceano e ajudam as pessoas do outro lado do mundo. Eu sou um exemplo vivo desse amor fraternal. Muitos cientistas, assim como a Bíblia, afirmam que há somente uma raça humana. Nós, os adventistas, damos um passo adiante e afirmamos que somos todos filhos de Deus, portanto, irmãos e irmãs. Como igreja, somos responsáveis por nossos irmãos e irmãs. Deus sempre vai nos perguntar: “Onde está seu irmão? Onde está sua irmã?” Tudo o que fizermos “a um desses pequeninos” filhos de Deus, Ele
considera como se fizéssemos para Ele. Traduzi 102 hinos infantis do inglês para o etíope, e são três os meus favoritos: “Sim, Cristo Me Ama”, “Cristo Ama as Criancinhas”, e “Esta Pequenina Luz Vou Deixar Brilhar”. Essas canções pessoais e inclusivas não são apenas para crianças; sua mensagem é para todas as épocas e para pessoas de todas as idades e raças. É isso que ensinamos em nossas escolas.
O Aprendizado Nunca Acaba
O aprendizado não termina com a formatura da faculdade, nem do mestrado ou doutorado. É um processo permanente. Como cristãos adventistas, cremos que esta vida é um ensaio para a vida futura e o aprendizado é comum às duas. Ao
longo desta vida – e na eternidade – aprendemos sobre Deus, Seu complexo e vasto universo e sobre nós mesmos. Os eternos aprendizes creem que ganhar novos conhecimentos e adquirir novas habilidades é intrinsicamente compensador, além de ter valor prático. Estudos indicam que os trabalhadores com idades entre 18 e 38 anos, mudam de emprego, em média, dez vezes. Portanto, nunca pare de aprender. Os eternos aprendizes estarão sempre em vantagem neste mundo em mudança.

Adugnaw Worku é o bibliotecário chefe do Pacific Union College em Angwin, Califórnia, Estados Unidos.

Matéria retirada da Revista Adventist World, Edição Maio 2011, páginas 16 a 19.

Retirei lições preciosas deste relato e quis compartilhar com os leitores do Caça Palavras. Espero que este depoimento de fé toque o seu coração assim com tocou o meu. Feliz Sábado!!