Meu baú de histórias

A chuva descia em fortes pancadas do lado de fora, formando um perfeito par com o céu cinzento que emitia tristes ruídos de trovões. Não havia sinais de que o dia tinha raiado, o céu prosseguia tão negro quanto no momento em que Lis decidiu dormir. Por sorte recordara que era feriado, o que de nada adiantava já que tinha prometido a si mesma que na próxima folga arrumaria a bagunça de seu quarto. Com aquela rabujice digna dos preguiçosos, enfiou um chinelo nos pés sem o mínimo de vontade e passou para a pequena cozinha. Abriu o forno microondas e pôs uma caneca com água – a primeira que alcançou – e foi até o banheiro lavar o rosto. Segurou com cuidado a caneca com água quente, adicionou um pouco de café solúvel sem açúcar, persistia na doce ilusão de que matinha um regime. Reuniu o pouco de coragem que restava e dirigiu-se ao quarto arrastando os pés.

Juntou algumas roupas sujas espalhadas pelo chão e enfiou de molho na máquina de lavar. Guardou inúmeros pares de sapato no devido lugar e partiu para o momento mais crítico da organização que consistia em uma estante cheia de coisas. Deu início arrumando livros por assunto, alguns romances policiais, suspense e drama. Até alguns volumes sobre filosofia que sequer sabia o motivo de lá estarem. Ao puxar da ultima prateleira um enorme livro de Sherlock Holmes, viu sua caixa preta com bolinhas brancas  há tanto esquecida. Este foi um presente de sua mãe numa tentativa, quase que desesperada, de que a filha adquirisse o hábito da organização.

Naquele momento Lis estatelou os grandes olhos castanhos, alegre por ter reencontrado a caixa, o que era realmente difícil naquela bagunça toda. Rapidamente ajeitou-se confortavelmente no tapete felpudo e abriu a tampa da caixa, como se estivesse em uma cerimônia solene. O momento produziu um delicioso cheiro de saudades. Ali dentro se encontravam os maiores tesouros que um adolescente poderia ter, os diários que mantivera durante a adolescência, fotos de sua família e amigos, letras de músicas rabiscadas em folhas amareladas pelo tempo, coisas desse tipo. Espalhou cuidadosamente cada diário pelo chão, passando por suas folhas como se fossem algo nunca visto antes por seus olhos. Bebericou o café que estava ao lado, e decidiu levar a caneca até a pia pra evitar um acidente. Carregando um grosso caderno-diário de capa xadrez sentou-se na bancada da cozinha pousando os olhos sobre alguns trechos especiais. Após algumas folheadas encontrou uma foto solta em meio ao papel decorado. Se sua memória não falhava, não via aquele retrato há pelo menos 10 anos. A lembrança do momento em que ganhou aquela foto não se apagara totalmente. Um filme passou por sua cabeça. Como num passe de mágica o calendário á sua frente voltou dez anos atrás, e Lis estava em seu quarto na casa dos pais.

Continuação…

As lágrimas que corriam de seu rosto delicado acompanhavam a forte chuva de verão. As palavras ditas pouco tempo atrás não paravam de martelar em sua mente – Por que você não apareceu antes na minha vida?

Depois de um longo e chato dia de aula, Lis e as amigas combinaram de sair à noite. Lis jamais se esqueceria de uma noite como aquela, em que o céu parecia bordado de estrelas prateadas. A lua boiava no alto jogando largos feixes de luz sobre as ruas. O barzinho estava lotado quando Lis e sua amiga Margot chegaram. Por sorte as outras meninas já tinham providenciado uma mesa – por serem freqüentadoras assíduas do lugar. Depois de se cumprimentarem com três beijinhos, o que era um ritual entre amigas, fizeram os pedidos de sempre. Assim que se se sentou à mesa Lis percebeu que algumas cadeiras estavam vazias. Com a habitual curiosidade de sempre, Lis já foi logo perguntando o motivo das cadeiras sem dono. Sofia que era a tagarela da turma, explicou rapidinho que mais um pessoal chegaria. Minutos depois cinco jovens falantes se juntaram á mesa, que misturava assuntos variados com gargalhadas nada discretas. Feitas as devidas apresentações, Lis passou a ter olhos somente pro gatinho que sentou bem na sua frente. Dono de lindos olhos verdes claros que contrastavam perfeitamente com os cabelos escuros, aquele era o que Lis chamaria de um legítimo ‘deus grego’. Após descer do ‘Olimpo’ de sua imaginação, Lis tentou recuperar-se do choque o mais rápido possível. Armou o sorriso menos nervoso que conseguiu no momento e perguntou com uma enorme e fingida despreocupação o nome dele. – Pode me chamar de Cadu! , disse ele dando uma discreta piscadinha para Lis, que conteve um desmaio. Afinal o estado de abobada ainda não tinha passado totalmente. Sempre que aparecia uma brecha, disfarçava seus profundos suspiros e tentava descobrir mais sobre Cadu. Aquela noite não poderia ser mais agradável.

Lis caminhava com Margot de volta pra casa totalmente aérea, quase sendo atropelada por uma mulher que empurrava um carrinho de bebê. Procurou o momento ideal e perguntou a Margot se seria possível Cadu se interessar por ela. Pra não alimentar falsas esperanças em Lis, Margot disse não ter certeza de nada. Lis fez cara de quem perdeu a ultima coca-cola do deserto, despediu-se da amiga e entrou em casa. Cantarolando uma música qualquer, Lis saiu da escola no dia seguinte e teve uma surpresa que a fez engolir as últimas palavras. Cadu estava ali do outro lado da rua, mais lindo do que nunca. Como ele poderia ficar tão irresistível vestindo aquele par de tênis surrado, camiseta branca básica e uma calça jeans que começava a desbotar? Resistindo bravamente para não sofrer uma sincope nervosa, Lis acenou pra ele de longe, morrendo de raiva por estar enfiada naquele uniforme horroroso. Aproximou-se lentamente dele enquanto pensava o que iria falar. Mal deu tempo para que ela dissesse um olá, e Cadu abriu um sorriso arrasa quarteirão e falou pelos cotovelos, o que poupou trabalho pra Lis que se restringia a ouvir tudo com a maior atenção. Quando percebeu estava parada no portão de sua casa no maior bate papo com Cadu e tinham um encontro marcado pra mais tarde. A menina com nome de flor se beliscou várias vezes até ter a certeza de que não estava sonhando.

Rapidamente uma rotina foi sendo estabelecida entre os dois. Todo o dia Cadu esperava por Lis na saída da escola, e passavam horas e horas conversando sobre todas as coisas e nada. Só uma semana depois e parecia que estavam juntos há anos. Lis escreveu várias vezes sobre sua paixão por Cadu que só fazia aumentar, e sentia-se feliz como uma boba alegre. No meio daquelas páginas guardou a foto que Cadu lhe dera de presente, no mesmo dia em que a beijou pela primeira vez. Poucas e aparentemente sem importância eram as diferenças entre eles. Lis não gostava muito de rock e era  um pouco mais nova que Cadu. Mas de resto tudo se encaixava perfeitamente na fantasia adolescente de que ‘nascemos um para o outro’. E a parecia que a vida nunca poderia ser mais feliz do que naqueles dias.

Continuação

O telefone tocou irritantemente naquela manhã. Lis que abominava rotinas matinais, em especial num final de semana, decidiu não levantar pra atender ao telefone. Pouco depois sua mãe entrava em seu quarto com  uma irritante energia matinal. Era Cadu no telefone e queria falar com ela. Feito um bicho preguiça Lis empurrou o lençol florido para o lado e sentou-se na beirada da cama tentando ficar consciente. Olhou pra janela e só então percebeu que uma chuva forte caia lá fora. Porque Cadu a ligaria numa hora tão sem propósito, pensou Lis emburrada. É certo que ela o amava, mas era melhor ele ter um bom motivo pra acordá-la tão cedo daquele jeito. Com a voz menos rouca que pôde, Lis sussurrou um alô do tipo – que hora mais infeliz pra me ligar né.  E então Cadu disparou as palavras como se segurasse uma metralhadora, – Lis querida! Acabei de verificar meu nome na lista do vestibular e fui aprovado. – Sério? Que ótimo Cadu! Você esperou tanto por isso – e Lis pensou com sua típica falta de humor matinal se ele não poderia ter esperado só mais  duas horinhas pra contar a novidade. Logo se deu conta de que o tom de voz dele estava um pouco sério demais para a ocasião, e arriscou perguntar se tudo estava realmente bem. Mais tarde se arrependeu de ter feito aquela pergunta.

Cadu disse sem dó nem piedade que se mudaria na próxima semana para outro estado e que seus pais também iriam. Foi como se jogassem um balde de água fria na pobre Lis. Com a voz embargada lamentava porque se veriam com pouca freqüência. Disse a Cadu que trocaria de roupa e iria até a casa dele, assim conversariam calmamente. Ele simplesmente disse que aquele não era o momento certo pra discutirem aquilo e que mais tarde ligaria de novo pra ela. Lis sentiu uma terrível ânsia como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Esbarrou na cama e sentou-se fitando a janela, que emoldurava um cenário melancólico. Nem percebeu que a chuva estava mais forte, nada enxergava, pois tinha os olhos embaçados de tanto chorar. Parecia que o telefone ficara emudecido. O número de Cadu só constava como incorreto e Lis mergulhava num profundo desespero. Não conseguia mais assistir as aulas na escola e as amigas se preocupavam com a aparência de zumbi que ela assumiu em tão pouco tempo. A volta do colégio tornou-se triste. Tudo em sua volta relembrava Cadu, e Lis que não poderia se imaginar mais solitária no mundo decidiu parar um pouco e sentar embaixo de uma arvore. Com as mãos apoiadas na cabeça, tentava puxar da memória um motivo plausível para que Cadu a abandonasse daquela maneira absurda. Sentiu que uma parte de seu coração tinha partido e levada embora por Cadu. Esperava sinceramente que lhe fosse devolvida. Em meios a tantos pensamentos, encontrou perdida uma lembrança. Cadu disse pra ela a seguinte frase: Por que você não apareceu antes na minha vida? E então tudo fez sentido; é claro que ele já sabia que mais cedo ou mais tarde iria embora, mas decidiu não contar nada. Lis sentiu-se duplamente traída.

Permanecia a mais pura certeza de que aquela dor insuportável, que sufocava seu peito noite e dia, jamais iria embora. Foi como se dez anos avançassem numa velocidade incalculável, e rapidamente viu que estava novamente sentada na bancada da cozinha. Algumas lágrimas teimosas rolaram de seu rosto e caíram sobre a foto que ela segurava com força fazia algum tempo. Perdida nos próprios pensamentos enxugou as lagrimas que caíram sobre a fotografia e a recolocou dentro do diário. Caminhou até o quarto e guardou as lembranças dentro da caixa. Esparramou-se na cama. As palavras de Cadu ecoaram em sua mente mais uma vez:- Por que você não apareceu antes na minha vida? Pensou no estranho e doloroso processo que tudo aquilo provocou em sua vida, e em como o destino fora tirano e cruel. Aliás, nem sabia se acreditava nessas coisas de predestinação. Devia ser só mais uma forma de auto conforto. Saltou da cama e abriu totalmente as cortinas, surpresa, pois a chuva já tinha passado e o sol começava a clarear o céu. Respirou profundamente e respondeu aquela pergunta em alto e bom tom – como se Cadu a pudesse ouvir – Porque era assim que deveria ser.

Paula Rodrigues

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Espero opiniões sobre o texto, em que devo melhorar e essas coisas. Comentem…Boa Semana!

1 opinião sobre “Meu baú de histórias”

  1. Dá pra imaginar tudo com todos esses detalhes do seu texto! Nus! Amei!!! Quero maaaaaais!

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